segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Do templo a mesa ornou-Vos em figura

Do templo a mesa ornou-Vos em figura
Este louvor que rendemos à Santíssima Virgem se relaciona com a seguinte passagem do Êxodo (25, 23-30), quando, no alto do Sinai, o Senhor ordenou a Moisés a construção do tabernáculo destinado ao culto divino:
“Farás também uma mesa de pau de setim 23, que tenha dois côvados24 de comprimento, um côvado de largura, e côvado e meio de altura. E cobri-la-ás de ouro puríssimo, e far-lhe-ás uma moldura de ouro em roda, e (porás) sobre a mesma moldura uma coroa entalhada, de quatro dedos de altura; e sobre esta, outra coroa de ouro.
“Farás também quatro argolas de ouro, e as porás nos quatro cantos da mesma mesa, uma em cada pé. As argolas de ouro estarão da parte de baixo da coroa para se meterem por ela varais, e a mesa possa ser transportada. E farás varais de pau de setim, e os cobrirás de ouro, e servirão para transportar a mesa. Prepararás também pratos, copos, incensórios e taças de ouro puríssimo, em que se deverão oferecer as libações. E porás sempre sobre a mesa os pães da preposição na minha presença.”
Os doze pães da proposição representavam as doze tribos de Israel, que assim ficavam, simbolicamente, em perene homenagem ante o Criador. Esses pães só podiam ser consumidos por pessoas consagradas ao divino serviço, como eram os sacerdotes e levitas.
Mesa sobre a qual repousou o Pão da Vida
Porém, aqueles pães encerravam simbolismo ainda mais elevado: eram imagens do verdadeiro Pão da proposição, Nosso Senhor Jesus Cristo. E a mesa sobre a qual se achavam prefigurava, por sua vez, a Santa Mãe de Deus. Assim pensa o Pe. Terrien, que nos diz: “Se Cristo é o pão sagrado da proposição, pão vivo e vivificante, Maria é a mesa sobre a qual Ele foi posto” 26
A mesma opinião encontramos no Pe. Jourdain, segundo o qual, “Maria é a mesa mística magnificamente ornada e feita de madeira incorruptível, que Deus preparou para os que se comprazem na meditação das coisas divinas. Ela é a mesa santa e sagrada, portando o Pão da Vida, Jesus Cristo Nosso Senhor, o sustentáculo do mundo. Pela Encarnação, trouxe Maria [em seu imaculado seio] esse Pão que é o próprio Deus, unindo à sua divindade a natureza que recebemos de Adão, e comunicando, àqueles que d’Ele se nutrem, uma nova vida e a graça de se tornarem semelhantes a Deus” 27
Nossa Senhora e a Sagrada Eucaristia
Essa última consideração torna presente ao nosso espírito a estreitíssima relação que há entre Nossa Senhora e a Sagrada Eucaristia. Esta, como salienta D. Alastruey, “é de certo modo uma extensão e complemento da Encarnação, não só porque por ela Cristo está e continuará presente na Terra até a consumação do mundo, senão porque, ademais, os imensos benefícios da Encarnação e Redenção se unem maravilhosamente neste mistério, e nele se prodigalizam aos homens.
“Maria, consentindo na Encarnação do Verbo, consentiu, ao menos implicitamente, em todas as consequências da mesma, entre as quais destaca-se de maneira especial, por sua grandeza, a Santíssima Eucaristia”.
É o que indica São Bernardo quando, aludindo à parábola do fermento ou levedura que uma mulher pôs em três medidas de farinha (Mt. XIII, 33), diz: “Estas são aquelas medidas do Evangelho, fermentadas para que se faça o pão dos Anjos que o homem come, o pão que fortalece o coração humano. Ditosa mulher, bendita entre todas as mulheres, em cujas castas entranhas, com o fogo do Espírito Santo, se cozeu este pão! Feliz mulher, repito, que nestas três medidas introduziu a levedura de sua fé!”
Ao lado de São Bernardo, não poucos foram os Santos e autores eclesiásticos que enalteceram a Santíssima Virgem, enquanto concebendo e nos dando o Pão da Vida. Por exemplo, o monge beneditino Ruperto de Deutz exclama: “Quando o Anjo disse a Maria: «Conceberás e darás à luz um Filho, e o chamarás com o nome de Jesus», então abriu o Senhor as portas dos Céus e fez chover o maná que haveríamos de comer, pão do Céu, pão dos Anjos”
E Ricardo de São Lourenço: “Cristo é o pão vivo que desceu do Céu (Jo. VI, 32 e ss.). A Trindade Divina misturou a água da humanidade com o vinho da divindade quando uniu a natureza humana à divina, e também a Santíssima Virgem quando acreditou e consentiu na união”.
No exórdio de um de seus famosos sermões, assim se exprime São João de Avila: “Senhora, em que veremos vossa predileção para conosco? Dai-nos um sinal seguro de que nos amais. «Se vos amo ou não — diz a Virgem — vede o que fiz por vós; considerai meus frutos e obras». [...]
“Vede o fruto de seu ventre, o santo Sacramento que de suas entranhas saiu. E então Ela nos diz: «Vinde e comei este pão bendito, esta carne que meu seio gerou». Quão benevolamente nos convida! Se, pois, segundo o fruto conhecemos a que no-lo deu, Vós, Senhora, alcançai-nos que o degustemos”.
E São Pedro Damião, enfim, diz: “Detenhamo-nos aqui, meus irmãos, e consideremos o quanto somos obrigados à Bem-aventurada Mãe de Deus, e que ações de graças Lhe devemos render por um tão grande benefício; pois este corpo que Ela engendrou e que trouxe em seu seio, esse corpo que Ela envolveu em panos e nutriu de seu leite com cuidados e ternuras maternais, é, digo, esse mesmo corpo que recebemos no altar. Quaisquer louvores que Lhe possamos render, estarão abaixo de seus méritos, pois Ela foi quem nos preparou em suas castas entranhas a carne puríssima que nos é dada em alimento”
Maria, modelo de quem comunga
Se tal é o excelso vínculo que une Nossa Senhora à Sagrada Eucaristia, nada nos será mais oportuno do que escutarmos este precioso conselho do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:
“Em virtude de uma extraordinária analogia, Nossa Senhora é o modelo de quem comunga. Porque quando recebemos Nosso Senhor na Sagrada Eucaristia, a nosso pequeno — e não raras vezes miserável — modo, passamos a ser, enquanto durar em nós a presença real, tabernáculos vivos do Santíssimo, como Maria o foi do Verbo Encarnado. Isto nos eleva a uma inimaginável dignidade.
“Portanto, ao nos prepararmos para a Comunhão, devemos pedir  à Santíssima Virgem que disponha nossos corações a receber convenientemente o Senhor Sacramentado: «Minha Mãe, vinde à minha alma, entrai em meu espírito e preparai-o para a visita de vosso Divino Filho. Concedei-me as disposições necessárias para comungar bem, ainda que de modo eventualmente árido e insensível».
“Em seguida, peçamos a Ela esteja presente conosco no momento de oferecermos a Nosso Senhor Eucarístico os quatro atos de culto: adoração, ação de graças, reparação e petição.
“Que dizer a Jesus por meio de Maria? Por exemplo, isto: «Meu Senhor e meu Deus! Eu quereria Vos amar muito mais do que Vos amo; desejaria Vos receber neste instante, com os faustos de um amor inexprimível, do qual, infelizmente, não sou capaz. Entretanto, como há em mim, ao menos, o pesar de não ser assim, peço-Vos que aceiteis as adorações de vossa Mãe Santíssima como se minhas fossem. Eu A convidei à minha casa para que Ela Vos recebesse em meu Jugai Portanto, sou eu que, de algum modo, Vos recebo e pelos lábios de Maria Vos adoro».
“E assim devemos proceder na ação de graças, na reparação e na petição, oferecidas a Jesus por intermédio da Santíssima Virgem.
“Deste modo faremos, com certeza, uma excelente Comunhão. Porque, ao entrar em nossa alma, Nosso Senhor encontrará, pelo menos, a lembrança de sua Santíssima Mãe, e o desejo de O receber em união com Ela. Este desejo e esta lembrança são imensamente eficazes para que Jesus se sinta bem acolhido. Porque Ele está bem onde está Maria; e onde não se acha Maria, Ele não está bem.

“Este método de receber a Sagrada Eucaristia em íntima união com Nossa Senhora põe ao alcance de quem comunga todas as graças que Jesus Sacramentado proporciona a seus devotos sinceros” .

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Com as sete colunas da Escritura…

 Com as sete colunas da Escritura…
Esta homenagem é uma decorrência da anterior, onde chamamos Nossa Senhora digna morada de Deus.
Com efeito, assim reza o livro dos Provérbios (IX, 1): “A sabedoria edificou para si uma casa, levantou sete colunas.”
Sete virtudes de Maria
Escutemos o Pe. Ségneri, S. J., interpretando essa passagem da Escritura:
“As sete colunas que a Sabedoria talhou para o embelezamento de sua casa, são as sete virtudes que ornaram a alma de Maria, sete virtudes principais, às quais se reduzem todas as outras. Maria possuiu em soberano grau a fé, a esperança, a caridade, a prudência, a justiça, a temperança e a força. As três primeiras virtudes são aquelas que chamamos teologais, sobrenaturais, divinas, porque não as encontramos senão numa alma elevada pela graça à participação da natureza divina. As quatro outras virtudes são aquelas que denominamos cardeais, e que podemos chamar, também, naturais e morais, enquanto se encontram no homem considerado em seu estado natural, ainda não elevado pela graça.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Destinada para dar ao Senhor digna morada

O capítulo nono dos Provérbios se abre com este versículo: “A sabedoria edificou para si uma casa”.
Qual é esta sabedoria e que morada construiu ela para seu uso? São Bernardo nos responde: “Esta sabedoria que era de Deus e que era Deus, vinda a nós do seio do Pai, construiu para si uma casa, e esta casa foi a Virgem Maria, sua Mãe”
Casa ornada pelo Divino Arquiteto
Corroborado pelas opiniões do santo Abade de Claraval e de outros eminentes varões da Igreja, escreve o Pe. Paulo Ségneri, afamado jesuíta e pregador na Corte Pontifícia, no séc. XVII:
“Segundo os santos doutores, a casa que a Sabedoria para si edificou, é a Virgem Santa que o Verbo escolheu desde toda a eternidade por Mãe. Ora, um rei poderoso e rico que deseje construir para si uma mansão, deseja, ao mesmo tempo, que nada se poupe para a regularidade, ornamento e magnificência do edifício.
“A Sabedoria Eterna faria menos por sua morada?

sábado, 27 de agosto de 2016

Salve, prudente Virgem

 Após os versículos iniciais, comentados em Matinas, o presente Hino canta as honras da Virgem Imaculada, santa desde o primeiro instante de seu seis isenta de toda mancha de pecado.
Maria Santíssima, nesta Hora, será louvada como a única criatura digna de ser Mãe de Deus, e que assim se constitui como a porta pela qual, obrigatoriamente, entram todos os justos no Céu, como afirma o santo cartuxo: “Quem se salvará? Quem conseguirá reinar no paraíso? Aqueles, sem dúvida, por quem tiver rogado a Mãe de misericórdia”.
Nossa Senhora será cultuada como a Restauradora da Ordem: “O que fez Eva, associada a Adão, para a ruína do gênero humano, foi reparado por Maria, nova Eva, associada a Cristo, novo Adão”2

sábado, 30 de julho de 2016

Para que, venerando agora, afetuosamente, a vossa imaculada Conceição

... para que, venerando agora, afetuosamente, a vossa imaculada Conceição, consiga depois, a coroa da eterna bem-aventurança.
A graça da perseverança final
Encerrando, rogamos o dom da perseverança final e nosso ingresso na celeste beatitude.
“Maria, porque é nossa Mãe, deseja sobretudo a eterna salvação de seus filhos, pelos quais intercede.
“A vida presente passa, com felicidades, com infelicidades, com tropeços; ela um dia acaba, e é a eternidade que fica. Por isso, o mais importante é salvarmos nossas almas, para as quais a Santíssima Virgem obtém de Deus graças e virtudes.
“Peçamos a Ela, Rainha dos Corações, por cujas mãos Deus governa a História e o mundo, que mova nossas almas segundo os seus desígnios, e nos alcance a eterna beatitude” 
Portanto, unamos nossas vozes à do grande São Bernardo, que assim se dirigia à Santa Mãe de Deus: “Ó bendita Virgem, que achastes a graça, Mãe da vida, Mãe da salvação! Por meio de Vós chegamos a vosso Filho, por Vós nos receba O que por Vós se deu a nós. Escuse diante d’Ele vossa integridade as culpas de nossa corrupção, e vossa humildade tão grata a Deus alcance o perdão de nossa vaidade. A vossa copiosa caridade cubra a multidão de nossos pecados, e vossa fecundidade gloriosa nos dê a fecundidade das boas obras. Senhora nossa, Medianeira nossa e nossa Advogada, reconciliai-nos com vosso Filho.
“O Bendita, pela graça que achastes, pelo privilégio que merecestes, pela misericórdia que engendrastes, fazei que Aquele que por meio de Vós se dignou tornar-se partícipe de nossa enfermidade e miséria, por vossa intercessão também nos faça participantes de sua glória e bem-aventurança!” 
Por mercê do mesmo vosso Filho Jesus Cristo, Senhor nosso, que com o Padre e o Espírito Santo vive e reina em unidade perfeita, Deus, pelos séculos do séculos. Amém.
Necessidade de um mediador entre Deus e os homens
A intercessão de Maria, embora onipotente, está subordina à de Nosso Senhor Jesus Cristo, como acima vimos. Razão pela qual a Santa Igreja encerra as orações de sua liturgia invocando a mediação do Filho de Deus.
Explica Fr. Luís de Granada que, depois da queda de Adão, “a primeira e maior necessidade que tínhamos era a de sermos restituídos à antiga amizade e graça de nosso Criador, que havíamos perdido por aquele comum pecado pelo qual, como diz o Apóstolo (Ef. II, 3), os homens nasciam filhos da ira. E como a amizade e graça de Deus para com suas criaturas seja a primeira causa de todos os bens das mesmas, faltando esta, faltavam também os benefícios que desta amizade procediam. [...]
“Estando, pois, os homens nesta desgraça com seu Rei e era necessário o que geralmente se faz quando as partes desavença: um bom e terceiro mediador que as reduza à concórdia.
O Homem-Deus, Mediador perfeitíssimo
“Este não podia ser mais conveniente que o mesmo Filho de Deus humanado. [...] Pois, quem mais fiel para com Deus do que o próprio Deus? E quem mais fiel para com o homem do que o próprio homem? E quem mais amigo de ambas as naturezas do que aquele que as tinha em si reunidas? De maneira que os dois negócios tomava por seus: o de Deus, porque era Deus verdadeiro, e o do homem, porque era verdadeiro homem. Portanto, para este fim nenhuma coisa se podia, não digo ordenar, mas nem imaginar nem desejar mais a propósito. [...]
‘Ademais, quem havia de ter tão grandes e tão gerais amizades, quem havia de apagar a chama deste ódio, quem havia de fazer amigos de tantos inimigos como eram todos os séculos presentes, passados e vindouros, necessariamente havia de ser amicíssimo e gratíssimo aos olhos de Deus, para que com a abundância de suas graças se desfizessem tantas desgraças, e com a grandeza de sua amizade se olvidas sem tantas inimizades. [...]
“Quem podia ser para isto mais conveniente que o unigénito Filho de Deus, infinitamente amado de seu Eterno Pai? A este, pois, deu-nos a imensa bondade de Deus por mediador e reconciliador, [...J por quem alcançamos a redenção e perdão de nossos pecados”.
V. Bendigamos ao Senhor
R. Demos graças a Deus.
Gratidão a Deus por ter criado Nossa Senhora
Depois de se repetirem os versículos com os quais invocamos, novamente, a intercessão da Santíssima Virgem, externamos nosso entranhado e filial reconhecimento a Deus.
É exortação constante dos autores eclesiásticos que “sempre e por tudo devemos dar graças a nosso Criador”  “não apenas pelos grandes benefícios, senão também pelos pequenos”
“Feliz o homem — exclama São Bernardo — que a cada um dos bens da graça volta-se Àquele em quem está a plenitude das graças; e, ao mostrar-nos agradecidos pelos favores recebidos, nos dispomos a merecer graças ainda maiores. Somente nossa ingratidão nos impede em absoluto de progredir na vida perfeita, pois, reputando o doador que em certo modo se frustrou do que o ingrato recebeu, cuida-se doravante de não dar tanto ao mesmo para tanto não perder.
“Feliz, pois, o que rende não pequenas graças, ainda pelos mínimos benefícios.
“Portanto, encareço-vos, irmãos, [...) que nos humilhemos mais e mais, sob a poderosa mão de Deus, e que procuremos estar longe deste grande e péssimo vício da ingratidão, para que, ocupando-nos com toda devoção na ação de graças, atraiamos sobre nós a graça de nosso Deus, a única que pode salvar nossas almas. E não só nos mostremos agradecidos com língua e palavra, mas com obra e verdade, porque não é tanto a verbosidade como a ação de graças o que exige de nós o doador de todas as graças, Nosso Senhor, que é bendito pelos séculos”
É fora de dúvida que um dos maiores benefícios pelos quais devemos gratidão e louvor ao Altíssimo, é a existência de sua e nossa Imaculada Mãe. Por isso, digamos com São João Eudes: “Ó grande Deus, que sempre sejais bendito por vossos eternos planos de nos dar este imenso tesouro! [...] Graças infindas vos sejam dadas, ó adorabilíssima Trindade, por todos os favores com que haveis enriquecido a esta Virgem incomparável. [...] Que o Céu e a Terra, os Anjos e os homens, e todas as criaturas por isto Vos bendigam e incessantemente Vos glorifiquem!” 96
As almas dos fiéis defuntos por misericórdia de Deus descansem em paz. Amém.
Com esta última súplica, lembramo-nos das almas que se encontram no Purgatório, para as quais solicitamos, a rogos de Maria, o perpétuo descanso.
Maria deseja que aliviemos as almas do Purgatório
“A Bem-aventurada Virgem — comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira — alcança também graças para as almas que se acham no Purgatório, onde expiam os pecados que cometeram nesta vida. Por meio de suas súplicas, Ela abrevia a punição dessas almas, suaviza-a e a alivia de mil modos” 97,
Outra não é a afirmação de Santo Afonso de Ligório, segundo o qual, “pelos merecimentos de Maria, não só se tornam mais leves, mas também mais breves as penas das almas do Purgatório, apressando-se, com a intercessão da Santíssima Virgem, o tempo da expiação. Basta que Ela formule um pedido neste sentido” 98,
Ademais, sobremaneira estima a Mãe de Deus nossas ações em favor dos membros da Igreja Padecente.
A esse respeito escreve o Pc. Jourdain:
“As almas do Purgatório são caras à Santíssima Virgem; são almas predestinadas e santas, almas que muito A amam e que, em sua maior parte, A serviram com fidelidade durante sua vida sobre a Terra. Nas almas do Purgatório Maria vê as filhas bem-amadas do Padre Eterno, as esposas de seu Divino Filho, os templos do Espírito Santo, as imagens de Deus que brilharão um dia no Céu com maravilhoso fulgor. Ela vê nessas almas o preço do Sangue de seu adorável Jesus, as flores imortais que ornarão sua própria coroa durante a eternidade. Nelas, Maria vê seus próprios filhos. [...]
Quem reza pelas almas do Purgatório prepara seu próprio sufrágio
“Concorrendo para o alívio dessas almas, praticamos numerosos atos de virtude e preparamos nosso próprio socorro para o tempo em que estivermos no purgatório. [...] Bem raros são aqueles que vão diretamente ao Céu, ao saírem desta vida. Portanto, se salvarmos nossa alma, a salvaremos passando pelo fogo, segundo a palavra do Apóstolo (I Cor. XIII, 15). [...]
Maria, modelo de gratidão a Deus
Em sua admirável obra dedicada à Virgem Santíssima, o Fe. Jourdain recolhe estas palavras do Pe. Kiselio, S. J. (sec. XVII):
“Ao ouvir Isabel proclamá-La bendita entre todas as mulheres, e render testemunho à divindade do bendito fruto de suas entranhas, a Bem-aventurada Virgem Maria exprime os sentimentos de que está penetrada, no admirável cântico, o mais belo que contêm nossos Santos Livros: Magnificat anima mea Dominum — »Minha alma glorifica o Senhor». [...]
“Como no dia da Anunciação, Ela se diz sua humilde serva; proclama que Ele é o Deus que salva, o Deus onipotente, o Deus santo. Ela cumpre o que recomenda o Sábio: Bendizei ao Senhor e exaltai-O tanto quanto puderdes”. Transportada de júbilo e de reconhecimento, Maria  rende graças a Deus por seus benefícios. [...]
“Que o exemplo da Virgem nos ensine como devemos, por nossa parte, glorificar a Deus, Jesus Cristo Nosso Senhor e sua Bem-aventurada Mãe.
“Porventura não fez Deus também em nós grandes coisas, por sua onipotência? Não nos recolheu Ele e nos tirou do abismo de nossa miséria? Seu nome não é igualmente santo para nós e cheio de suavidade? Não nos aceitou como filhos em sua misericórdia? Não deu de comer àqueles que tinham fome, não consolou os aflitos e exaltou os humildes? Que nossa alma glorifique, pois, ao Senhor, e que nosso espírito se alegre em Deus nosso Salvador!
“Sim, é com alegria que convém, a exemplo de Maria, bendizer ao Senhor, testemunhar-Lhe nossa gratidão e celebrar sua glória!”
“Mas, se durante nossa vida nos aplicamos em sufragar as almas do Purgatório, [...] não devemos temer de ser abandonados: o que fizemos pelos outros, ser-nos-á devolvido ao cêntuplo. Maria não permitirá que sejamos vítimas de nossa generosidade, e a nossa dívida, fosse ela de dez mil talentos, logo será paga. [...]
“Roguemos, pois, pelas almas do Purgatório. Assim praticamos o bem, alegramos o coração de Nossa Senhora, enriquecemos o tesouro de nossos méritos e preparamos uma entrada mais fácil na mansão da eterna beatitude”


segunda-feira, 20 de junho de 2016

No seu tabernáculo A fez habitar

R. No seu tabernáculo A fez habitar
Maria no eterno pensamento divino
Pode-se dizer que no tabernáculo de Deus habitou Maria, em virtude da excelência de sua eterna predestinação.
“A Santíssima Virgem, na qual tudo é maravilha, antes de aparecer neste mundo, na realidade de sua vida terrena, teve, por singular privilégio, uma existência antecipada. Deus concedeu-Lhe a honra da pré-existência.
“Ora, a forma mais esplêndida desta pré-existência é, certamente, aquela de que Maria gozou no seio de Deus, antes de todos os tempos. Desde toda a eternidade, esteve Ela no pensamento de Deus, vivia no coração de Deus, em razão de sua incomparável predestinação.
“Sem dúvida, todas as criaturas, que foram e que serão, vivem desde toda a eternidade no pensamento de Deus, como em seu arquétipo vivo e infinito, posto que em Deus não há nem antes, nem depois. Porém, segundo nossa maneira de compreender, no pensamento de Deus vive, de modo particular e especialíssimo, a Santíssima Virgem”84.
V Protegei Senhora, a minha oração.
R. E chegue até Vós o meu clamor
Maria tudo obtém de Jesus Cristo, em nosso favor

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Para Mãe o Senhor Vos destinou


Comentários ao Pequeno Ofício da Imaculada

Para Mãe o Senhor Vos destinou
Do que os mares, a Terra e Céus criou

Predestinação de Nossa Senhora
Remontam à eternidade os incomparáveis privilégios concedidos pelo Criador à Virgem Santíssima, com sua predestinação à augusta missão de ser Mãe de Deus.
Os Padres da Igreja, fiéis intérpretes das Sagradas Escrituras, reconheceram a predestinação de Maria à maternidade divina.
Santo Agostinho diz que antes de Nosso Senhor Jesus Cristo nascer de Maria, Ele A conheceu e predestinou para ser sua Mãe 57.
E São João Damasceno, dirigindo-se à Virgem Maria: “Porque o decreto de predestinação nasce do amor como de sua primeira raiz, Deus, soberano mestre de todas as coisas, que Vos sabia previamente digna de seu amor, Vos amou; e, porque Vos amava, Vos predestinou” 58
“Ó Virgem — exclama São Bernardino de Siena — Vós fostes predestinada no pensamento divino antes de toda criatura, para dar a vida ao mesmo Deus que quis se revestir de nossa humanidade”59 .
Santo André de Creta, em seu discurso sobre a Assunção de Maria, exprime o mesmo pensamento: “Esta Virgem é a manifestação dos mistérios da incompreensibilidade divina, o fim ao qual Deus se propôs antes de todos os séculos” 6o.
E São Bernardo: “Foi enviado o Anjo Gabriel a uma virgem (Lc. I, 26-27). Virgem no corpo, virgem na alma; [...] não encontrada ao acaso ou sem especial providência, mas escolhida desde todos os séculos, conhecida na presença do Altíssimo que A predestinou para [ser um dia sua Mãe; guardada pelos Anjos, designada antecipadamente pelos antigos Padres, prometida pelos profetas”61 .
Excelências da predestinação de Maria
Acompanhemos a exposição que deste sublime mistério nos faz o santo historiador da infância de Maria:
“A predestinação da Santíssima Virgem está enobrecida e realçada com várias e assinaladas mercês. E a primeira é que tem sua origem e princípio no infinito amor do Padre Eterno para com seu Filho Jesus, no amor imenso para com Maria sua Filha muito amada, e em sua inconcebível caridade para conosco.
“Porque o amor incompreensível que este adorável Pai tem a seu Filho, levou-O a escolher para o mesmo, desde toda a eternidade, uma Mãe que fosse digna d’Ele. [..] O amor inefável deste santo Pai para com sua Filha Maria, que é o primeiro objeto de seu amor depois de seu amado Filho, obrigou-O a predestiná-La em seu eterno conselho para que fosse a Mãe, a Aia e a Nutriz de seu Verbo Encarnado, a Rainha dos Anjos, a Soberana do Céu e da Terra, a Imperatriz do universo. [...]
“A caridade sem igual deste Pai de misericórdias para conosco, fê-Lo conceber desde toda a eternidade o desígnio de fazer nascer na Terra a esta incomparável Virgem, para por meio d’Ela nos dar um Redentor, e associá-La ao mesmo, na obra de nossa reparação. Eis a origem desta eterna eleição, mercê que A eleva infinitamente acima das predestinações de todos os escolhidos.
Perfeita semelhança entre a predestinação de Jesus a de Maria
“Outra assinalada vantagem da predestinação de Maria é a perfeita semelhança que tem com a predestinação de Jesus, da qual é acabada imagem. Porque como Jesus é escolhido por Deus desde toda a eternidade para ser o começo de seus caminhos (Prov. VIII, 22) e de seus desígnios, quer dizer, a primeira em excelência e a mais maravilhosa obra de suas mãos; assim o Espírito Santo, falando pelos lábios da Igreja, pronuncia estas mesmas palavras — Princípio dos caminhos do Senhor — em louvor desta incomparável Filha que se chama Maria. [...]
“Como unicamente Jesus foi escolhido entre milhares (Cânt. V, 10), isto é, entre todos os filhos de Adão, para ser unido hipostaticamente à pessoa do Verbo Eterno, assim Maria é a única eleita entre milhares, ou seja, entre todas as filhas de Eva, para ser associada da maneira mais íntima e elevada com o Verbo Encarnado. «Vossa eleição, ó divina Maria, diz São Bernardo, e vossa predestinação são semelhantes às do sol quer dizer; às do sol eterno que criou o sol temporal. Porque Ele é escolhido entre milhares de homens, Vós, entre milhares de mulheres». Jesus é a maravilha das obras de seu Pai, e Maria é a obra-prima dos milagres de Jesus. [...]
“A excelência da predestinação de nossa santa Maria para a divina maternidade, se manifesta claramente pelas grandes e maravilhosas coisas que Deus n’Ela operou, quando A fez nascer milagrosamente de uma mãe que naturalmente não podia conceber, quando A preservou do pecado original em sua Imaculada Conceição, quando A encheu de luz e de graça desde o primeiro instante de sua vida, quando cumulou todo o universo de gozo em seu nascimento, quando A honrou com o admirável nome de Maria, e quando fez n’Ela e por Ela outras muitas maravilhas que não convêm senão à grandeza de uma Mãe de Deus.
“E como o fim da predestinação de Jesus é no-Lo dar por nosso Salvador, nosso mediador entre Deus e nós, nosso Pai, nosso exemplo, nosso tesouro, nossa glória, nosso paraíso, nosso espírito, nosso coração, nossa vida, nosso tudo; assim o fim da predestinação de Maria é no-La dar como cooperadora de seu Filho em nossa Redenção, para ser nossa medianeira entre Ele e nós, para ser nossa Mãe, nossa preceptora, nossa vida, nosso consolo, nossa esperança, para ser nossa luz nas trevas, nossa força em nossas debilidades, nosso socorro em nossas misérias, nosso refúgio em todas as nossas necessidades, e nosso modelo em nossos hábitos e ações.
“Acrescentaria ainda ao dito, para fazer ver a perfeita semelhança que há entre a predestinação do Homem-Deus e a de sua Mãe, que, como aquela é o primeiro princípio de todas as demais predestinações dos verdadeiros filhos de Deus, esta é de uma maneira parecida a causa segunda. «Ninguém se salva a não ser por Vós, o Santíssima Virgem», disse São Germano, Patriarca de Constantinopla. [...]
Jesus e Maria tiveram uma mesma predestinação
“Todas estas coisas fazem ver que a predestinação de nossa divina Maria é uma perfeita imagem da de Jesus. Contudo, vou mais além, e me atrevo a dizer que há tão estreita união entre estas duas predestinações que, assim como o Filho e a Mãe não são mais que uma mesma coisa, não tendo mais que uma alma, um coração e uma vontade, assim, de alguma maneira, tiveram uma só predestinação. Porque não se encontrando Jesus nos eternos desIgnios de Deus senão como Filho de Maria, e não tendo neles lugar Maria senão como Mãe de Jesus, pode-se dizer que não têm mais que uma mesma predestinação.
“Donde a Igreja e os santos doutores aplicarem à Mãe do Salvadoras mesmas palavras que o Espírito Santo emprega para nos expressar a eleição e predestinação eterna de seu Filho: «Desde a eternidade tenho eu o principado de todas as coisas. O Senhor me teve consigo no começo de suas obras» (Prov. VIII, 22)” 62
“Tal é, portanto, a preparação eterna da Santíssima Virgem, tal é a sua predestinação.
“Bem exposta e bem compreendida, esta eleição encerra todos os esplendores da Teologia de Maria. Preeminência, incomparáveis grandezas, cooperação nas obras divinas, plenitude de todas as graças e distribuição aos homens de todos os méritos da Encarnação do Verbo, da Redenção; tudo, até a glória dos Anjos, a esperança dos justos, o triunfo dos Santos, os deveres dos cristãos e sua ilimitada confiança, deriva desta predestinação como a consequência do princípio, como o efeito da causa” 63

Preservou Ele a vossa Conceição, da mancha que nós temos em Adão

A Imaculada Conceição
“Sessenta são as rainhas, e oitenta as esposas de segunda ordem, e inúmeras as donzelas; uma só, porém, é a pomba minha e a minha perfeita” (Cânt. VI, 7-8).
Aplicando a Nossa Senhora essa passagem do Cântico dos Cânticos, comenta São Tomás de Villanueva: “É única; se buscas outra pomba, não a encontrarás. É única, sozinha e sem mancha. É a única que não esteve sujeita à lei da mancha comum. Uma só é a imaculada, e também uma só a perfeita. Não encontrarás outra sem mancha, e por isso é uma só a pomba. Não encontrarás outra tão perfeita, e por isso é a minha perfeita, única: puríssima sem exemplo, perfeita sem igual” 64
Maria Santíssima, a primeira na ordem ontológica entre todas as virgens, a propósito de sua concepção em graça recebeu do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira os seguintes louvores:
“Na bula Ineffabilis Deus, com a qual Pio IX definiu o dogma da Imaculada Conceição, encontra-se este trecho:
“«A doutrina que sustenta que a Beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante da sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada e imune de toda mancha de pecado original, essa doutrina foi revelada por Deus, e por isto deve ser crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis» 65
“O Sumo Pontífice afirma, portanto, que Nossa Senhora, por uma graça singular e em vistas dos méritos de Cristo, a partir do primeiro instante de seu ser foi isenta da mancha do pecado original. Essa doutrina foi revelada por Deus, ou seja, está na Bíblia, e por isso deve ser «crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis».
“Para se avaliar o extraordinário significado da Imaculada Conceição, é preciso ter em conta que, em consequência da queda de Adão, todos os seus descendentes haviam de nascer com o pecado original. Lamentável herança em virtude da qual os sentidos do homem continuamente se revoltam contra a sua razão, expondo-o a novos e incontáveis pecados.
“Durante milênios verificou-se, inexorável, essa lei da maldição. Em determinado momento, porém, os Anjos assistem atônitos a um fato sem precedentes na história da Humanidade decaída: Deus quebranta a funesta lei, e um ser é inteiramente concebido sem pecado original. É Nossa Senhora que surge imaculada, resplandecente, com todo o brilho e todo o fulgor de uma criatura perfeita, como o foram Adão e Eva ao saírem das mãos do Onipotente.
“Pode-se imaginar que, nesse sublime instante, um frêmito de júbilo e de glória percorreu todo o universo, acentuado pelo fato de que Maria, isenta do pecado original, era também a obra-prima da criação. Acima d’Ela haveria de estar, apenas, a humanidade santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo.
“Narra a Sagrada Escritura que o Padre Eterno, depois de concluída a obra da Criação, repousou na enlevada consideração do que Ele tinha feito.
“Descansou, porém, tendo-se proposto criar um ser que superasse em maravilha tudo o que até então sua onipotência realizara, uma mulher da qual haveria de nascer o Verbo Encarnado. E foi precisamente no momento da Conceição Imaculada de Nossa Senhora que Deus executou essa sua obra-prima” 66
O testemunho dos Santos
A Imaculada Conceição, admirável privilégio da Virgem Maria, foi proclamada por inúmeros Santos, ao longo de todos os séculos da história da Igreja. Por exemplo, Santo André, Apóstolo do Senhor, diante do procônsul Egeu, assim se exprime a respeito de Maria: “E porque o primeiro homem foi formado de uma terra imaculada, era necessário que, de uma Virgem igualmente imaculada, nascesse o homem perfeito” 67
Santo Hipólito, Bispo do Porto, mártir, escrevia por volta do ano 220: “Quando o Salvador do mundo resolveu resgatar o gênero humano, nasceu da imaculada Virgem Maria, e se revestiu de nossa carne...” 68
Santo Efrém o sírio, diácono de Edessa, em 360 exclamava: “Sois imaculada, sois sem mancha e sem defeito, sois a própria pureza, da qual não pode se aproximar sombra de pecado, ó Virgem, Esposa de Deus e nossa Soberana!” 69
O grande São Jerônimo, explicando as palavras do Cântico (V, 2): Pomba minha, imaculada minha — assim se exprime:
“Maria apresenta, em tudo, a simplicidade da pomba, porque nada existiu n’Ela que não fosse toda pureza, toda simplicidade, toda verdade e toda graça.
“Ela é, pois, imaculada, porque não tem traço de corrupção”
E Santo Agostinho: “Quem poderá dizer: eu nasci sem pecado? Quem poderá se gloriar de ser puro de toda iniquidade, senão esta Virgem prudentíssima, este templo vivo do Altíssimo, que o próprio Deus escolheu e predestinou antes da criação do mundo, para que fosse a santa e imaculada Mãe de Deus, para que fosse a filha preservada de toda corrupção e de toda mancha de pecado?” 71
Santo Ildefonso, uma das glórias mais puras da Espanha, escrevia em meados do século VII: “É opinião constante que Ela foi isenta de toda falta original, Aquela por quem não somente a maldição de nossa mãe Eva foi retratada, mas a bênção foi a todos concedida” 72
No ano de 811, São Nicéforo, Patriarca de Constantinopla, dirigia ao Papa Leão III uma carta contendo sua profissão de fé, a qual conclui nestes termos: “Pela intercessão de sua Mãe toda imaculada e toda pura, e pela de todos os Santos”
Ricardo de São Vítor, nos fins do século XII: “As estrelas são cobertas de trevas, os Santos são obscurecidos pela falta comum a todos os homens. Mas a Bem-aventurada Virgem foi toda bela: o Sol de Justiça A iluminou inteira, e A penetrou de seus raios. N’Ela não há mancha alguma nem sombra de pecado”
Durante o século XIV viveu o piedoso e admirável autor Raimundo Jordão, agostiniano e Abade de Celles, o qual, por humildade, se escondia sob o nome de Idiota. Fervoroso defensor da Imaculada Conceição, exclamava: “Sois toda bela, ó Maria, e em Vós não há mácula. Sois toda bela em vossa Conceição, pois fostes formada unicamente para ser o templo do Deus Altíssimo. [...] Jamais mancha alguma, sopro nenhum do vício ou do pecado tocou vossa gloriosa alma! [...] Não há em vós sombra de pecado, seja mortal, seja venial, seja original: nunca houve e nunca haverá!”
Em 1410, São Vicente Ferrer declarava que Maria não foi semelhante a nós, em sua Conceição, mas criada pura e santa, desde o primeiro momento. “E logo — dizia — os Anjos celebraram a festa da Imaculada Conceição!” 76
Nos albores do século XVII, São Francisco de Sales assim se exprimia: “Bem é verdade que nosso primeiro pai e Eva foram criados e não concebidos; sem embargo, todas as concepções dos homens se fazem em pecado. Somente Nossa Senhora ficou isenta deste mal, Ela, que devia conceber a Deus primeiramente em seu coração e em seu espírito antes de concebê-Lo em suas puríssimas entranhas” ‘.
Encerremos esse curto rol de louvores à Imaculada Conceição, com o ardoroso juramento de Santo Afonso de Ligório, um século antes da definição dogmática pela Bula Ineffabilis Deus: “Ó minha Senhora, minha Imaculada, alegro-me convosco por ver-Vos enriquecida de tanta pureza. Agradeço e proponho agradecer sempre ao nosso comum Criador por ter-Vos Ele preservado de toda mancha de culpa. Disso tenho plena convicção, e para defender este vosso tão grande e singular privilégio da Imaculada Conceição, juro dar até a minha vida”
V. Deus A escolheu e predestinou
Entre as infinitas criaturas possíveis, Deus escolheu e predestinou a sua Virgem. Outras não foram as palavras de Pio IX na célebre Bula em que definiu o dogma da Imaculada Conceição:
“Desde o princípio e antes dos séculos, escolheu e pre-ordenou [Deus] para seu Filho uma Mãe, na qual Ele se encarnaria, e da qual, depois, na feliz plenitude dos tempos, nasceria; e, de preferência a qualquer outra criatura, fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer n’Ela com singularíssima benevolência” .
Gloriosa parte nos desígnios de Deus
Com efeito, escreve o Fr. Royo Marín: “depois de Cristo-Homem, Primogênito de toda criatura, a ninguém amou mais o Pai do que Àquela que no tempo havia de ser a Mãe de seu Filho encarnado”
O mesmo nos ensina o insigne mariólogo Nicolas, segundo o qual a Santíssima Virgem Maria foi “predestinada entre todas as criaturas para ocupar um posto infinitamente superior ao de todos os eleitos.
“Depois de Jesus, e muito antes do que sobre todos os seus irmãos, Deus fixou sobre Ela o eterno olhar de sua complacência, aquele olhar onipotente que, onde quer que se fixe, produz a vida, como o sol faz ressaltar os corpos que reveste e tinge de sua luz” 81
E São Tomás de Villanueva explica que, “embora na mente e eleição de Deus não haja prioridade de tempo — pois tudo foi escolhido desde a eternidade — existe, sem embargo, a prioridade da dignidade, porque alguns foram eleitos para um grau de dignidade maior que outros. Por isso dizemos que a Virgem foi constituída e escolhida singularmente, [...] porque o foi para uma glória eminente e única, pelo que canta d’Ela a Igreja: Deus A elegeu e predestinou” 82
Recolhendo a opinião de santos autores, acrescenta o Pe. Jourdain:
“São Tomás de Aquino ensina expressamente que Cristo, sendo a Sabedoria incriada, não pode ser chamado mera criatura. Assim, não é em louvor de Jesus Cristo, mas de Maria, que a Igreja repete estas palavras do Eclesiástico, na Santa Liturgia: «Eu saí da boca do Altíssimo, primogênita antes de toda criatura... Fui criada desde o começo, e antes de todos os séculos»; e estas outras palavras tiradas do livro dos Provérbios (VIII, 2): «Fui concebida antes das colinas», quer dizer, segundo o pensamento de Santo Agostinho, «Deus me concebeu antes das mais sublimes criaturas, antes dos Anjos e dos Santos, não só para que Eu fosse santa, mas a Mãe de Santos, como deles é Jesus Cristo o Pai, o Príncipe e o Chefe supremo». [...]

“[Assim], concordam todos os teólogos em considerar Maria como a obra-prima do poder divino; reconhecem todos que, nos desígnios de Deus, recebeu Ela a mais bela parte e a mais gloriosa” 83